A ESSÊNCIA DA ALMA
Explicados já do melhor modo possível os atos da alma humana, resta-nos averiguar qual é sua essência, coisa que no fundo ignoramos; mas como formada por Deus para unir-se a Ele na felicidade eterna, não é possível defini-la melhor que afirmando ser da mesma substância divina, tão capaz de participar da divindade e de unir-se a ela, que seu conhecimento gere o amor; e unindo-se de tal sorte que alcance a suma beatitude perpetuamente.
Podemos, pois, dizer que "alma humana é o espírito pelo qual vive o corpo a que está unido, apto para conhecer e amar a Deus, e unir-se pelo mesmo a ele para a bem-aventurança eterna". Com efeito: assim como nossa alma desce do mais elevado até o ínfimo que é o corpo, em virtude do amor que lhe tem Deus, seu autor — quem por esse descenso quis comunicar-lhe sua felicidade, e a todas as coisas com que entra em conexão —, também ela por sua vez se ergue e retorna a sua origem mediante o conhecimento e amor divinos. De tal modo vem do mais alto ao mais baixo; eleva-se logo disto a aquilo, processo que igualmente se -manifesta na vida inteira, pois o homem vive no princípio como uma planta, depois como o animal, logo após como a vida humana; quando chega a depurar-se e alça-se sobre as coisas terrenas, converte-se em anjo, e por último, unido a Deus, faz-se também um deus de certa maneira. É assim nossa progressão ascendente da matéria aos sentidos, dos sentidos à imaginação e à fantasia, desta à razão, à reflexão, e, por último, ao amor. A descendente verifica-se totalmente ao contrário; e o mesmo que ocorre ao corpo se tentar andar com os pés para cima e a cabeça no chão, assim se perverte a alma quando o juízo cede ante as paixões, ou a razão se submete à fantasia.
A alma é uma só em cada homem, embora dentro de sua essência estejam diversas funções públicas ou privadas, como são para o homem as artes ou as ciências. Se se ocupar plenamente em alguma obra, dificilmente poderá empreender outra; assim, quando está acabrunhada não é capaz de refletir; quando pensa ou medita intensamente algo, cessa de ver, e se aplica grande es.orço em entender, averiguar ou admirar uma coisa, não julga, como acontece ante um objeto novo; porém quando supera essa admiração ou investigação, aparece novamente o juízo, segundo vemos acontecer ao desaparecer a novidade. (...)
Como nossa alma é ação, esta não pode cessar inteiramente nela, a não ser por uma faculdade opor-se com grande esforço, isto é, por algum obstáculo que se opõe da parte dos órgãos, v. gr., o volume que incomoda o útero, o enjoo na embriaguez, os vapores contrários na estupefação, impedimentos todos que, como qualquer outro análogo, são de índole violenta e opostos à natureza do espírito, o qual, ao cessar a resistência da faculdade, volta em seguida a sua atividade. Para isso não necessita nenhum auxílio exterior, mas unicamente que se lhe tire o obstáculo; uma vez este desaparecido, de maneira alguma pode a alma parar, é preciso que pense em qualquer objeto e com ele trabalhe. Se alguém se empenhar em que cesse, como todos os que não querem pensar absolutamente em nada, é o mesmo que tentar impedir o fogo de arder quando ateado em material combustível; do que resultará uma desta duas coisas: ou apagá-lo, ou que sua força envolva o obstáculo com pujança ainda mais violenta. Sucederá pois que, ou se destrua a vida em luta tão extrema, ou em vez de reprimir apenas um pensamento, se origine um grande tumulto de pensamentos e de visões, em uma palavra, a verdadeira loucura.